O verdureiro e o mendigo
Um verdureiro que sempre armava sua barraca no mesmo lugar da praça, resolveu certa vez que mudaria, iria para o outro lado onde a circulação de pessoas era bem maior, acreditando que lá aumentaria os seus lucros. Ele era um homem ganancioso, não se contentava em ter tudo o que precisava, queria sempre mais. Era o típico homem capaz de passar por cima de tudo e todos para subir na vida, ter mais status, chegar um dia quem sabe, na mais alta classe social.
Tomada a decisão, acordou bem cedo e separou as melhores verduras de sua horta, as mais vistosas, cheias de brilho, aquelas que só de olhar deixava qualquer um com água na boca; no dia anterior, tinha comprado uma nova tenda para a barraquinha, mais colorida, chamativa, para que todos que passassem o pudessem ver. Deu um bom trato nos cabelos e na barba, e dirigiu-se para a praça. Quando lá chegou, eram nove horas da manhã de sábado, dia de maior movimento, arrumou a venda como nunca fizera antes e aguardou a chegada do primeiro comprador. Já era meio-dia quando apareceu um senhor de idade avançada, meio corcunda, sujo, com as roupas rasgadas e a barba mal feita. O verdureiro não quis saber de atendê-lo e foi logo dizendo que não fazia fiado e que não queria nenhum mendigo perto de sua linda barraca. Julgou aquele senhor, antes mesmo de saber o que ele desejava. Sem pensar, impediu que aquele homem pudesse ajudá-lo.
Anoiteceu e ninguém se aproximou da barraca do verdureiro. Seus olhos encontravam-se cheios de lágrimas. Lágrimas de tristeza por não ter vendido nada naquele dia e não poder levar comida para casa porque gastou todo o dinheiro que tinha, e também o que não tinha, ao comprar a nova tenda. Mesmo assim, o verdureiro não desistiu, acreditava que no domingo as coisas iriam melhorar e que ele venderia o suficiente para quitar a dívida da tenda e matar a fome de seus filhos.
Chegou domingo e, como fizera no sábado, o verdureiro acordou cedo e montou sua barraca do outro lado da praça, e mais uma vez nada de compradores. Somente o mesmo senhor, vestindo as mesmas roupas, agora mais sujas, passava por ali. Irritado, o verdureiro foi até aquele homem, e antes que este pudesse abrir a boca para falar, enxotou-o de lá como se faz com um vira-lata sarnento, dizendo que com aquela imundície ele estava espantando os fregueses.
Cometeu assim um grande erro que se repetiu durante a semana que passou, e nas seguintes, durante todo o mês, ao fim do qual, tudo o que o verdureiro conseguiu foi um montante de dívidas que pareciam não mais ter fim. Sua mulher, em casa, lhe implorava que voltasse para o outro lado da praça, onde as pessoas o conheciam e compravam suas verduras, pedido que só depois de muito brigar foi aceito pelo verdureiro.
No dia seguinte, ele armou a barraca no antigo lugar e, pouco tempo depois, uma antiga freguesa tinha uma enorme lista de compras a fazer. Isso devolveu ao verdureiro a esperança perdida e deu-lhe a certeza de que tudo voltaria a ser como era antes da mudança.
Na hora do pagamento, uma pergunta da senhora intrigou o verdureiro:
-- Por que demorou tanto a atender ao meu chamado?
-- Que chamado? – perguntou o verdureiro, confuso, porque não recebera recado algum.
Foi então que ele recebeu uma notícia que o fez mudar para sempre o seu comportamento. Aquela senhora, bem como todos os antigos fregueses do verdureiro, estavam velhos e fracos demais para andar até o outro lado da praça, não podendo assim fazer suas compras diárias e pediram para um velho mendigo, que vivia naquela praça, dizer ao verdureiro que voltasse para o antigo lugar, não tendo assim que comprar as verduras em outra barraca.
Os olhos do verdureiro estavam cheios de lágrimas, mas não de tristeza dessa vez, e sim de arrependimento. Ele julgou o mendigo por suas aparências, não quis enxergar além disso. Não percebeu a bondade dentro do coração daquele senhor e, com isso, perdeu suas vendas durante um mês inteiro, não tendo dinheiro sequer para comer. Reconhecendo o seu erro, o verdureiro foi até o mendigo lhe pedir perdão e, além de ser perdoado, ganhou um amigo e ajudante na barraca, onde as vendas cresciam cada vez mais.
Muitas vezes agimos como o verdureiro e não enxergamos o que as pessoas carregam dentro de si, deixando escapar as coisas boas da vida, os mais puros sentimentos. Nem sempre o melhor presente é o que está na embalagem mais bonita, assim como nem sempre as pessoas puras de coração são aquelas de melhor aparência. Que possamos aprender com o verdureiro que quando as coisas são feitas para o bem de todos e não de uma única pessoa, tudo o que nos rodeia melhora e que, se cada um colaborar e se tornar mais humano, o mundo pode ser bem melhor. São nas pequenas coisas que se encontram as grandes lições.
(Tati Stop – 30/08/2004)

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