sábado, 8 de maio de 2010

O verdureiro e o mendigo

Essa semana não foi das melhores... acho que pouco fiz de produtivo. Estou cansada, ansiosa, com medo.. não sei... Hoje passei o dia todo "á toa" fuçando nas coisas, quero organizar meu arquivo de fotos..
Na verdade nem iria postar nada.. Mas no meio das fotos achei um arquivo do ano de 2004, mais precisamente, do dia 30 de agosto de 2004 e ao ler.. não tive dúvidas..
Segue o texto., vale a pena ler, e refletir...

O verdureiro e o mendigo

Um verdureiro que sempre armava sua barraca no mesmo lugar da praça, resolveu certa vez que mudaria, iria para o outro lado onde a circulação de pessoas era bem maior, acreditando que lá aumentaria os seus lucros. Ele era um homem ganancioso, não se contentava em ter tudo o que precisava, queria sempre mais. Era o típico homem capaz de passar por cima de tudo e todos para subir na vida, ter mais status, chegar um dia quem sabe, na mais alta classe social.

Tomada a decisão, acordou bem cedo e separou as melhores verduras de sua horta, as mais vistosas, cheias de brilho, aquelas que só de olhar deixava qualquer um com água na boca; no dia anterior, tinha comprado uma nova tenda para a barraquinha, mais colorida, chamativa, para que todos que passassem o pudessem ver. Deu um bom trato nos cabelos e na barba, e dirigiu-se para a praça. Quando lá chegou, eram nove horas da manhã de sábado, dia de maior movimento, arrumou a venda como nunca fizera antes e aguardou a chegada do primeiro comprador. Já era meio-dia quando apareceu um senhor de idade avançada, meio corcunda, sujo, com as roupas rasgadas e a barba mal feita. O verdureiro não quis saber de atendê-lo e foi logo dizendo que não fazia fiado e que não queria nenhum mendigo perto de sua linda barraca. Julgou aquele senhor, antes mesmo de saber o que ele desejava. Sem pensar, impediu que aquele homem pudesse ajudá-lo.

Anoiteceu e ninguém se aproximou da barraca do verdureiro. Seus olhos encontravam-se cheios de lágrimas. Lágrimas de tristeza por não ter vendido nada naquele dia e não poder levar comida para casa porque gastou todo o dinheiro que tinha, e também o que não tinha, ao comprar a nova tenda. Mesmo assim, o verdureiro não desistiu, acreditava que no domingo as coisas iriam melhorar e que ele venderia o suficiente para quitar a dívida da tenda e matar a fome de seus filhos.

Chegou domingo e, como fizera no sábado, o verdureiro acordou cedo e montou sua barraca do outro lado da praça, e mais uma vez nada de compradores. Somente o mesmo senhor, vestindo as mesmas roupas, agora mais sujas, passava por ali. Irritado, o verdureiro foi até aquele homem, e antes que este pudesse abrir a boca para falar, enxotou-o de lá como se faz com um vira-lata sarnento, dizendo que com aquela imundície ele estava espantando os fregueses.

Cometeu assim um grande erro que se repetiu durante a semana que passou, e nas seguintes, durante todo o mês, ao fim do qual, tudo o que o verdureiro conseguiu foi um montante de dívidas que pareciam não mais ter fim. Sua mulher, em casa, lhe implorava que voltasse para o outro lado da praça, onde as pessoas o conheciam e compravam suas verduras, pedido que só depois de muito brigar foi aceito pelo verdureiro.

No dia seguinte, ele armou a barraca no antigo lugar e, pouco tempo depois, uma antiga freguesa tinha uma enorme lista de compras a fazer. Isso devolveu ao verdureiro a esperança perdida e deu-lhe a certeza de que tudo voltaria a ser como era antes da mudança.

Na hora do pagamento, uma pergunta da senhora intrigou o verdureiro:

-- Por que demorou tanto a atender ao meu chamado?

-- Que chamado? – perguntou o verdureiro, confuso, porque não recebera recado algum.

Foi então que ele recebeu uma notícia que o fez mudar para sempre o seu comportamento. Aquela senhora, bem como todos os antigos fregueses do verdureiro, estavam velhos e fracos demais para andar até o outro lado da praça, não podendo assim fazer suas compras diárias e pediram para um velho mendigo, que vivia naquela praça, dizer ao verdureiro que voltasse para o antigo lugar, não tendo assim que comprar as verduras em outra barraca.

Os olhos do verdureiro estavam cheios de lágrimas, mas não de tristeza dessa vez, e sim de arrependimento. Ele julgou o mendigo por suas aparências, não quis enxergar além disso. Não percebeu a bondade dentro do coração daquele senhor e, com isso, perdeu suas vendas durante um mês inteiro, não tendo dinheiro sequer para comer. Reconhecendo o seu erro, o verdureiro foi até o mendigo lhe pedir perdão e, além de ser perdoado, ganhou um amigo e ajudante na barraca, onde as vendas cresciam cada vez mais.

Muitas vezes agimos como o verdureiro e não enxergamos o que as pessoas carregam dentro de si, deixando escapar as coisas boas da vida, os mais puros sentimentos. Nem sempre o melhor presente é o que está na embalagem mais bonita, assim como nem sempre as pessoas puras de coração são aquelas de melhor aparência. Que possamos aprender com o verdureiro que quando as coisas são feitas para o bem de todos e não de uma única pessoa, tudo o que nos rodeia melhora e que, se cada um colaborar e se tornar mais humano, o mundo pode ser bem melhor. São nas pequenas coisas que se encontram as grandes lições.

(Tati Stop – 30/08/2004)

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